Endometriose Oculta: Localizações Incomuns e Sintomas Surpreendentes que Ninguém Associa à Menstruação

Siga-nos:

Quando ouvimos a palavra "endometriose", nossa imaginação automaticamente se volta para a parte inferior do abdômen. Associamos a doença a cólicas menstruais intensas, problemas de fertilidade e alterações nos órgãos reprodutivos. Muitas de nós, no início da jornada de diagnóstico, acreditamos que essa doença é causada por anormalidades no próprio útero. No entanto, é hora de desmistificar essa crença popular e encarar a verdade: o tecido dentro da cavidade uterina é normal. endométrio. Endometriose Começa exatamente onde o útero termina. Por definição, é a presença de células semelhantes ao endométrio fora da cavidade uterina. Quando essas células anômalas crescem e penetram no músculo uterino, chamamos isso de adenomiose. No entanto, uma vez que escapam, a verdadeira jornada começa, podendo assumir formas tão incomuns que confundem pacientes e dezenas de médicos de diversas especialidades por anos. A endometriose é uma doença sistêmica, uma mestra dos disfarces, capaz de se manifestar em praticamente qualquer parte do corpo.

Três faces da doença do assoalho pélvico

Mesmo que a endometriose permaneça na região pélvica, ela nem sempre apresenta a mesma aparência. A medicina distingue três formas principais, que podem ocorrer separadamente ou se fundir no mesmo corpo. A primeira é a endometriose peritoneal, frequentemente chamada de endometriose superficial. Trata-se de pequenas lesões planas espalhadas pelo revestimento da pelve. barrigaEmbora sejam pequenos e às vezes completamente invisíveis ao ultrassom, podem gerar dores intensas e paralisantes devido à sua proximidade com uma densa rede de nervos.

A segunda forma é a endometriose ovariana, conhecida pelas pacientes pela presença dos chamados cistos de chocolate. Esses cistos são preenchidos com sangue espesso e antigo que destrói o tecido ovariano saudável e costuma ser o primeiro e mais fácil sinal de alerta detectado durante um exame de rotina. exame Ginecológica. A forma mais insidiosa e devastadora, no entanto, é a endometriose infiltrativa profunda. Nesse caso, as lesões da doença penetram a uma profundidade de mais de cinco milímetros abaixo do peritônio, invadindo os ligamentos uterinos, os intestinos e a bexiga, formando tumores duros e aderências maciças que literalmente cimentam os órgãos internos.

Tecido migratório ou endometriose extrapélvica

Embora a pelve seja o principal campo de batalha, a endometriose pode ultrapassar seus limites. Isso é chamado de endometriose extrapélvica, que para muitos médicos de atenção primária ainda parece um fenômeno quase de ficção científica. Para onde essas células podem ir? Um local muito comum e perigoso são os intestinos. Lesões inflamatórias podem infiltrar o intestino grosso e delgado, e até mesmo o apêndice. Pacientes passam anos se recusando a consultar um gastroenterologista, lutando com o diagnóstico de Síndrome do Intestino Irritável (SII).IBS), enquanto a verdadeira causa do sangramento, da diarreia dolorosa ou da constipação alternada são tumores endometriais que bloqueiam o lúmen intestinal.

Outro local incomum é o trato urinário. A endometriose na bexiga ou nos ureteres pode causar sintomas assemelhando-se à cistite crônica. Pior ainda, a doença também pode se espalhar para os nervos, incluindo o importante nervo ciático. Casos extremamente raros, mas descritos na literatura médica, incluem localizações nos pulmões, pleura e até mesmo no cérebro ou nos olhos. O tecido endometrial também pode se alojar em antigas cicatrizes cirúrgicas, por exemplo, após uma cesariana ou cirurgia anterior. laparoscopia, criando nódulos palpáveis ​​e dolorosos logo abaixo da superfície da pele.

Sintomas surpreendentes. O que ninguém associa à menstruação?

A incrível capacidade de migração da endometriose faz com que ela gere sintomas que nenhuma pessoa sensata associaria inicialmente ao ciclo menstrual. Um dos exemplos mais comuns é a dor no ombro direito, que surge ou piora precisamente na época da ovulação ou da menstruação. Um ortopedista pode aplicar um bloqueio, um fisioterapeuta pode massagear o pescoço, mas a causa é a endometriose se espalhando pelo diafragma. Como o diafragma e o ombro compartilham as mesmas vias neurais, o cérebro interpreta erroneamente a origem da dor. Esse fenômeno é chamado de dor referida.

Sangramentos nasais ou até mesmo expectoração com sangue que ocorrem simultaneamente com a menstruação podem ser igualmente alarmantes. Esse fenômeno raro, chamado menstruação vicária, pode ser um sintoma de endometriose pleural ou pulmonar. Dor semelhante à ciática também é bastante confusa. Se você sente uma dor aguda e intensa durante a menstruação, que irradia da nádega até o calcanhar, e a dor desaparece magicamente após o sangramento cessar, há uma grande possibilidade de que as células da endometriose estejam pressionando o nervo ciático ou as raízes nervosas na região pélvica.

Endometriose silenciosa, ou a força destrutiva sem dor

Paradoxalmente, a ausência completa de sintomas é um dos cenários mais incomuns e perigosos na apresentação dessa doença. Existe uma crença generalizada de que a endometriose deve causar dores excruciantes. No entanto, às vezes as pacientes não apresentam sintoma algum, e a doença é descoberta acidentalmente, por exemplo, durante um exame de infertilidade. Pior ainda, a endometriose infiltrativa profunda pode destruir órgãos internos sem causar dor.

Um exemplo clássico e extremamente dramático é a chamada "perda renal silenciosa". Um tumor endometrial pode comprimir lentamente o ureter, bloqueando o fluxo livre de urina do rim para a bexiga. Como esse processo progride muito lentamente e gradualmente, o rim morre irreversivelmente sem causar a dor aguda e aguda característica da cólica renal. O paciente, em estado de choque, muitas vezes descobre a perda do órgão durante um ultrassom abdominal de rotina, quando já é tarde demais para qualquer intervenção. É importante informar a si mesmo e aos outros que a ausência de dor não significa necessariamente a ausência de doença.

Máscara imunológica e gripe cíclica

Também é importante considerar a resposta sistêmica do corpo, que pode ser incrivelmente enganosa. A endometriose muitas vezes se disfarça de fibromialgia, síndrome da fadiga crônica ou diversas doenças reumatológicas. Um sintoma surpreendente, que ninguém inicialmente associa ao ciclo menstrual, pode ser a chamada "gripe menstrual". Muitas pacientes relatam aos seus médicos febre baixa recorrente, calafrios, sensação de exaustão completa, linfonodos inchados e até mesmo dor articular persistente, que geralmente aparecem alguns dias antes da menstruação. Isso ocorre porque o corpo está exausto pela inflamação constante e o sistema imunológico está simplesmente sobrecarregado na segunda fase do ciclo, combatendo a inflamação ao máximo.

O Mito da Idade, ou uma Doença à Beira do Tempo

A dimensão final, e muito importante, da atipia é a idade das pacientes. Socialmente, a endometriose é uma doença associada a mulheres de trinta anos que tentam engravidar. No entanto, uma descoberta impactante e chocante para muitas é que a doença está sendo diagnosticada em adolescentes, e até mesmo em meninas jovens, antes mesmo da primeira menstruação.

Do outro lado dessa linha do tempo estão as mulheres na pós-menopausa. Durante anos, as pacientes vivem na esperança, ouvindo dos médicos que o problema desaparecerá por si só com a menopausa e a cessação da função ovariana. No entanto, a realidade pode ser brutal, já que grandes lesões de endometriose infiltrativa profunda podem se tornar independentes e produzir seu próprio estrogênio (graças à presença da enzima aromatase). Isso significa que a doença pode crescer ativamente e causar dor mesmo em mulheres na faixa dos sessenta anos. A endometriose que persiste após a menopausa é um choque completo para muitas mulheres, comprovando o quão independente e imprevisível esse tecido pode ser.

Confie na sua intuição.

Sintomas incomuns de endometriose não são coincidências ou fruto da sua imaginação. Se você sentir dor no peito, dor no ombro, ciática, desconforto gástrico intenso ou sintomas semelhantes aos da gripe, todos em um padrão cíclico ligado ao seu ciclo menstrual, não os ignore. Mantenha um diário de sintomas e, com essas evidências concretas, consulte um especialista em endometriose qualificado, e não seu clínico geral. Lembre-se de que, ao enfrentar uma doença tão insidiosa e multifacetada, seu maior trunfo é o conhecimento do seu próprio corpo e a sua recusa em deixar que seus sintomas inesperados sejam varridos para debaixo do tapete do estresse ou da hipocondria.

Źródła:

  • Zondervan, K. T., Becker, C. M., & Missmer, S. A. (2020). Endometriose. Nature Reviews Disease Primers. Uma revisão abrangente na qual os cientistas descrevem e delineiam claramente as múltiplas formas da endometriose, dividindo-a em peritoneal, ovariana e infiltrativa profunda, e classificando-a como uma doença inflamatória sistêmica, independentemente da idade da paciente.
  • Chamié, LP, et al. (2018). Locais atípicos de endometriose profunda: características clínicas e achados de imagem. Radiographics. Uma publicação radiológica extremamente importante que descreve e visualiza em detalhes localizações raras e incomuns de lesões de endometriose, incluindo o nervo ciático, o diafragma, cicatrizes cirúrgicas e a parede abdominal.
  • Nezhat, C., et al. (2014). Endometriose diafragmática. Journal of the Society of Laparoendoscopic Surgeons. Um artigo científico que analisa detalhadamente casos de endometriose diafragmática, explicando o mecanismo da dor cíclica e referida no ombro, que muitas vezes é diagnosticada erroneamente como um problema ortopédico.
  • Rousset, P., et al. (2014). Endometriose do nervo ciático. European Journal of Radiology. Estudos de caso demonstrando a relação entre a compressão cíclica de focos endometriais sobre os nervos pélvicos e a ocorrência de sintomas graves semelhantes à ciática clássica em mulheres jovens.
  • Alifano, M., et al. (2006). Endometriose torácica: conhecimento atual. Anais de Cirurgia Torácica. Um estudo clínico descrevendo os mecanismos da endometriose torácica, incluindo os pulmões e a pleura, demonstrando associações com episódios relatados pelas pacientes de pneumonia, tosse e dispneia que ocorrem simultaneamente com sangramento.
  • Bulun, SE, et al. (2005). Aromatase na endometriose e leiomiomas uterinos. The Journal of Steroid Biochemistry and Molecular Biology. Este artigo explica o mecanismo de ação da aromatase em focos inflamatórios, que permite à endometriose produzir seus próprios estrogênios e explica a atividade da doença mesmo em pacientes pós-menopáusicas.
  • Vercellini, P., et al. (2000). Endometriose assintomática: um dilema diagnóstico. Reprodução Humana. Uma publicação focada na questão da "endometriose silenciosa", na qual os autores analisam casos de lesões profundamente infiltrativas (incluindo complicações urológicas) que se desenvolvem de forma completamente indolor em pacientes.

 

Marta Pietrzak

Veja outras publicações sobre endometriose